Transcrição ou inscrição?

Transcrição ou inscrição?
Sérgio Jacomino*

A diatribe que se desenvolveu com maior intensidade no bojo das discussões do projeto do código civil de 1916, a partir do parecer da Comissão Especial do Senado que, no tocante à nomenclatura do ato de registro, acabou por confrontar dois grandes nomes das letras jurídicas pátrias – Ruy Barbosa e Clóvis Beviláqua.

O autor do projeto na Câmara havia feito a opção pela expressão inscrição para designar o ato de registro lato sensu. Já Ruy Barbosa invectivava, acenando com a tradição dos regulamentos hipotecários brasileiros e atacando o que lhe parecia um criticável modismo de se importar uma nomenclatura que não guardasse relação com a realidade brasileira. Para ele, a utilização da expressão transcrição era a mais recomendada, sugerindo a alteração do projeto original. “Esta alteração na linguagem jurídica é indefensável”, dirá no parecer do Senado, abaixo reproduzido.

Veremos que não era bem assim.  Clóvis lhe responderia com elegância, refutando, sucintamente e com deliciosa ironia, as invectivas barbosianas.

Vale conhecer a origem dessa divergência que atravasseria mais de um século. O marco zero dessas confusões terminológicas vem de longe. Vamos buscar nos primórdios do regime hipotecário pátrio o momento inaugural dessas hesitações conceituais. É o que faremos a seguir.

Regulamento de 1846

As expressões registrotranscrição, inscrição, averbação, assentoanotação acompanham a legislação desde o seu nascedouro.

A Lei Orçamentária de 1843 (Lei 317, de 21 de outubro), em seu artigo 35, criaria o Registro Geral de Hipotecas no Brasil. O Regulamento viria a lume três anos mais tarde, em 1846, pela via do Decreto 482, de 14 de novembro. Consagrou-se, desde então, a expressão registro para a prática dos atos no então chamado Registro Geral de Hipotecas. É o que se vê, por exemplo, nos arts. 2º, 3º, 4º, 5º etc.  O livro de registro será intitulado Livro do Registro Geral (art.  11).

Muito embora o ato a ser praticado tenha sido chamado de registro, a técnica adotada foi a da transcrição literal do título. O art. 11, do dito Decreto, rezava:

Art. 11. Os assentos dos registros das hypothecas serão lançados diariamente, no Livro do Registro geral, guardada a numeração dada no Protocolo á verba correspondente, e a mesma data; e consistirão os mesmos assentos na copia litteral do titulo verbo ad verbum, com as formalidades praticadas pelos Tabelliães no lançamento de documentos nas suas notas, a requerimento de partes, não devendo mediar entre huns e outros registros, espaço em branco, mais que o preciso para distinguir.

Como se vê, o registro se fazia pela cópia literal do título, translado verbo ad verbum, com as mesmas formalidades praticadas pelos tabeliães na lavratura de seus atos.

Entretanto, o mesmo Regulamento disporia sobre a inscrição das hipotecas:

Art. 16. As inscripções das hypothecas anteriores á installação do Registro serão feitas em Livro distincto e separado d’aquelle em que se fizerem as anteriores, porêm com as mesmas formalidades.

As inscrições se fariam como as anteriores (referir-se-á o legislador ao art. 11), “com as mesmas formalidades”, o que nos faz supor que a técnica adotada seria a mesma – transcrição verbo ad verbum do título.

Averbações e anotações

À parte essas pequenas incongruências terminológicas, o Regulamento ainda aludirá aos assentamentos, como se vê nos artigos 11 e 25, além das anotações (art. 22), atos que seriam praticados no livro de registro e que não se confundiriam com as averbações.

As anotações seria feitas nos títulos devolvidos às partes e, no que diz respeito a atos praticados no livro de registro, para noticiar a expedição de certidões afirmativas de existência de registro de hipotecas. É o que se vê do art. 25:

Art. 25. Nas certidões do registro de hypothecas que passarem, deverão os Tabelliães transcrever o teor não só do assento do mesmo registro, mas de todas as averbações e annotações a elle relativas, que existirem nos seus Livros, declarando em todas, a requerimento de quem forão passadas.

Reforma hipotecária de Nabuco

A estréia da expressão transcrição - como qualificadora do ato de registro das transmissões dos títulos de domínio e direitos reais – apareceria pela primeira vez na reforma proposta por José Thomaz Nabuco de Araújo, projeto que receberia o número 124/1854 e que foi apresentado à Câmara na sessão do dia 25 de julho de 1854.

Além da transcrição dos títulos transmissivos de domínio, o projeto previa a transcrição dos ônus reais (art. 7º, § 2º), que nada mais seriam dos que os direitos reais limitados e de garantia – servidão, habitação, uso, anticrese, laudêmio (enfiteuse) e censo consignativo (no projeto).

Já as hipotecas seriam objeto de inscrição (art. 8º do PL).

A nomenclatura utilizada pelo regulamento anterior, como vimos, era apropriada. Falava-se em registro, embora a técnica de execução do ato lançasse mão da transcrição dos títulos.

Já a reforma consagraria a expressão transcrição para denominar o ato de registro.

O peso da influência francesa seria sentida na redação do projeto proposto por Nabuco. A expressão transcrição, perfeitamente adequada para o sistema francês, não era inteiramente indicada para o sistema que vinha de ser modelado por estas plagas.

Interessante notar que, nas discussões travadas ainda na Câmara, os membros encarregados de redigir um parecer sobre a reforma fariam constância da opção terminológica, indicando a fonte de inspiração – curiosamente atribuída ao direito germânico.

Explica-se.

Além da inscrição da hipoteca, introduzia-se no sistema registral brasileiro o registro de domínio. Essa inovação foi creditada à influência tudesca, embora, como se verá, a nomenclatura do ato registral tenha sido tomada de empréstimo aos franceses.

Assim escreveriam João Manuel Pereira da Silva, Francisco de Paula Baptista e F. Rodrigues Silva no parecer da Comissão Especial já aludida:

Explicado o direito, o projeto trata do modo de o praticar, criando conservatórias de hipotecas em cada uma das comarcas do Império.

Todas as hipotecas são obrigadas à inscrição para terem valor contra terceiro; além da inscrição das hipotecas, para que seja completa a publicidade, admite o projeto uma nova ideia, copiada do direito germânico, que é a transcrição dos títulos de transmissão dos imóveis e da instituição dos ônus reais.

São ideias inteiramente novas para algumas nações e por isso carecem de algum comentário.

Fixar o direito de propriedade deve ser a primeira condição de um bom sistema hipotecário. É princípio corrente em quase toda a Alemanha impor-se a obrigação da transcrição do título de transmissão de um imóvel como parte essencial de toda a garantia hipotecária.

Algumas nações exigem que a transcrição contenha apenas um extrato do título, outras que o título seja inteiramente transcrito. Umas estabelecem que ao passo que se vão dando ônus reais, seja sua declaração registrada para conhecimento de todos, e garantia daqueles, em prol dos quais são instituídos. Outras fazem exceção de ônus das servidões. Aquelas recomendam um extrato do título – ou cópia inteira. Estas outras contentam-se com a transcrição do título de transmissão, e não necessitam a do título de instituições de ônus reais. (loc. cit.).

Segue o parecer aludindo à França, que, segundo os autores, adotara o princípio da transcrição (leis de 11 brumário do ano 7º da 1ª República), posteriormente repelido. Os juristas reclamavam-no e ele viria no bojo da reforma proposta em 1850 para a Assembléia legislativa, exigindo-se a transcrição do título de transmissão dos imóveis, bem como do título de instituição dos ônus reais, “como necessidade palpitante para um bom sistema hipotecário” (loc. cit., p. 159).

A lei viria a 23 de março de 1855. O seu mais renomado comentarista, dentre os vários citados no parecer, destaca-se M. Troplong, para quem a a transcrição era o principal objeto dessa lei. Além de colher as mutações jurídicas celebradas e consumadas pelo título, para fins de publicidade e aperfeiçoamento do sistema hipotecário francês, a Lei de 1855 regularia a forma da prática do ato, dando-lhe, adequadamente, o nome de transcrição:

La transcription est la copie intégrale du titre sur un registre tenu par le conservateur des hypothéques. Le législateur a sagement repoussé ainsi que nous l’avons conseillé ailleurs, le système de li’nscription par extrait, comme on le pratique à l’égard des hypothèques. Pour un mince avantage d’économie, ce système expose à des inexactitudes et à des oublis, préjudiciables surtout lorsqu’il s’agit de l’établissement de la propriété foncière. D’un autre côté, Il eût été dangereux de se contenter, comme le proposait le Gouvernement, du dépôt d’une copie de l’acte à transcrire, et de former un recueil de toutes lês copies déposées; les chances de perte eussent été inévitables. Il fallait donc maintenir la transcription ou copie intégrale et textuelle, comme elle avait établie par la loi de brumaire an VII et conserve par le Code pour les donations et la purge des hypothéques. C’est ce qui a été fait. (TROPLONG. M. Privilèges et hypothéques. Commentaire de la loi sur la transcripcion. Paris: Charles Hingray, 1856, p. 146).

Troplong havia sugerido que a técnica registral se perfizesse pela transcrição do título, com a versão integral e literal de seu conteúdo para o registro.  Nota que o legislador rejeitara o sistema de inscrição por extrato, como chegou a se cogitar. O legislador francês não adotou, como de certa forma se fez aqui, mais tarde, (art. 194 da atual LRP), o depósito de uma via (ou cópia) do título no arquivo do cartório.

Nosso sistema optaria por outra solução – quiçá assaz superior. As apreensões de Troplong não se confirmariam – a se basear na experiência brasileira. Não se perdiam os elementos essenciais do negócio jurídico registrado, nem se obnubilava a lavra registral. Não havia insegurança à propriedade registrada.

Monstruosidade que repugna a razão…

É complexa a questão das expressões transcrição e extrato – ambas relacionadas com a técnica do registro. Os sentidos de tais conceitos mudaram com o passar do tempo e a sua eleição, nas origens, pode estar relacionada a outras razões que não as dadas hoje como assentes desde sempre. Por esse motivo, é útil recorrer às fontes.

Destaco, para esse fim, uma curiosa passagem que se colhe dos debates parlamentares na tramitação do Projeto Nabuco. Ainda na segunda discussão, na sessão de 26 de junho de 1855, tomou a palavra o deputado pela Província do Maranhão, Sr. Nunes Gonçalves. Sempre apoiado discretamente por Nabuco, o deputado lança algumas ideias sobre a reforma. Dirá que a transcrição é a “condição de publicidade”, certo que aquele que recebe a garantia hipotecária deve conhecer a situação jurídica do que a oferece. Segue o deputado:

Não digo que a transcripção seja como na Allemanha de tal fórma que importe a prova da propriedade contra todos que se possão julgar prejudicados desde que se insistisse na idéa, seria facil conceber-se quanta difficuldade haveria para que qualquer transacção se pudesse realisar. Portanto concordo com o nobre ministro em que seja a transcripção por extracto, e sem os effeitos do direito allemão, apenas como uma base para que o comprador e credor possão saber o direito que assiste ao vendedor e ao devedor. (Sessão do dia 26.6.1855. Anaes do Parlamento Brazileiro. Camara dos Srs. Deputados. Sessão de 1855, t. II. Rio de Janeiro: Typographia de Hyppolito José Pinto & Cia., 1875, p.242-3).

A inteligência da fala o deputado pelo Maranhão deve ser contextualizada. Centrada na consideração da importância da hipoteca, a transcrição do título seria mera “condição de publicidade”, para ele um efeito coadjuvante importante, mas não essencial, já que se não buscará os potentes efeitos de presunção absoluta do sistema alemão.

Antônio Marcelino Nunes Gonçalves

O projeto (e mais tarde a lei – art. 7º da Lei 1.237, de 1864) dirão que o Registro Geral acolheria a transcrição dos títulos de transmissão “dos immoveis susceptiveis de hypotheca”. Mais adiante dirá que a transmissão inter vivos de bens suscetíveis de hipotecas não operariam seus efeitos a respeito de terceiros, “senão pela transcripção e desde a data della”. E a transcrição se perfazeria por extrato (§ 1.º). Por fim, iluminando todo o sistema, o mesmo art. 8º, § 4º, dirá que a “transcripção não induz a prova do dominio que fica salvo a quem fôr”.

Os exatos sentido e extensão que os modelos sugeriram desde a origem – importados, como se viu alhures, das matrizes europeias  – seriam perfeitamente apreendidos pelo Conselheiro Lafayette, que fará breves, mas precisas observações. Dirá que a Lei criou a transcrição para servir de base para o sistema hipotecário e, por consequência, declararia que ela só se entenderia com a “transmissão de imóveis suscetíveis de hipoteca”. Mas o jurista ajustará o sentido e alcance da dita lei:

Mas segundo a mesma lei, são susceptiveis de hypotheca todos os immoveis corporeos (art. 2º, § 1º e 4º). Ora todos os immoveis corporeos tambem são susceptiveis de dominio. Dizer, pois, que só fica sujeita á transcripção a transmissão dos immoveis susceptiveis de hypotheca é o mesmo que dizer que fica sujeita á dita formalidade a transmissão dos immoveis corporeos que pódem ser objecto do dominio. A transcripção, portanto, tem a generalidade que no texto se lhe dá”. (PEREIRA. Lafayette Rodrigues. Direito das cousas. Vol. I. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1877, p.131, § 48, II, nota 1).

Mais adiante fulminará a ideia singela de que o domínio ficaria salvo a quem for – suposto que se poderia transferi-lo de maneira eficaz entre as partes contratantes e não em relação a terceiros. E o fará com uma conclusão perfeitamente lógica – e que se tornaria digna de uma antologia registral: “um domínio que só é domínio entre os contratantes, mas que não o é em relação a terceiros, é uma monstruosidade que repugna à razão”. Diz, ainda, textualmente:

A lei diz, á respeito de terceiro, em sentido absoluto, sem restricção ou condição, – quem quer que seja o terceiro. Assim, antes da transcripção, o adquirente não póde reivindicar o immovel de terceiro, ou esse terceiro possua por justo título, ou seja um mero usurpador. O dominio é um direito absoluto, erga omnes: se não existe em relação a terceiro, tambem não pode existir entre as proprias partes contractantes.

E remata:

A nossa lei, porém, é absolulta; declara o dominio insubsistente em relação a quaesquer terceiros, antes do registro. Se não ha dominio contra terceiros, tambem não o ha entre os contractantes.

Para admittir-se um tal pressuposto, fôra mister desnaturar e perverter a noção de domínio: a lei não o fez nem expressa, nem virtualmente; portanto a noção do dominio ha de ser aceita, como ella o é perante a sciencia e o Direito. (Op. cit. p.132, § 48, II, nota 2).

Transcrição do extrato

O projeto previa o “transcrição” realizada por extrato. Nesta altura, ainda na fase de discussões, o PL 124/1854 previa, em seu art. 9º, a transcrição por extrato da seguinte maneira:

Art. 9º A transmissão entre vivos por título oneroso ou gratuito dos bens suscetíveis de hipoteca (art. 2º, § 1º), assim como a instituição de ônus reais (art. 7º), não operam seus efeitos a respeito dos terceiros senão pela transcrição e desde a data dela.

§ 1º A transcrição será por extrato, salvo querendo a parte que ela seja de verbo as verbum (§ 6º).

§ 6º Quando as partes quiserem a transcrição de seus títulos de verbo ad verbum, esta se fará em livros auxiliares, ao qual será remissivo o dos extratos; porém, neste e não naqueles é que se apontaram as cessões e quaisquer inscrições e ocorrências.

Nabuco optaria por uma solução conciliadora. Sem eleger absoluta e decisivamente o modelo que lhe parecia o mais adequado, temperou a regra do direito alemão com as salvaguardas do sistema francês. Assim, o registro se faria por extrato – esta seria a regra básica. Abria-se, entretanto, uma alternativa para os interessados: a transcrição verbo ad verbum em um livro auxiliar. A reminiscência desse Livro Auxiliar ainda se pode perceber atualmente na redação do art. 178, VII, da vigente Lei de Registros Públicos. Trata-se de reminiscência um tanto obscurecida pela falta de utilidade e de perfeita compreensão de suas origens e finalidades.
Por fim, compreende-se a permanência da praxe cartorária de se proceder à expedição de certidões a partir do extrato e não dos livros de registro. À parte certa comodidade, a sabedoria dos velhos cartorários indicava justamente isso: os extratos, pelos quais se faria o registro, seriam ainda mais precisos do que a própria inscrição – esta cópia de uma cópia (extrato) do título. Embora paradoxal, esta prática se conserva em muitos cartórios brasileiros.

O código Civil de 1916

O art. 534 do Projeto do Código Civil (art. 530 da redação final) rezava:

Art. 534. Adquire-se a propriedade immovel:

I. Pela inscripção do título de transferência no registro predial da situação do immovel.

Como dito acima, Ruy Barbosa lançaria ácida crítica a respeito dessa opção do autor do projeto. Vale a pena citá-lo textualmente:

Pelo disposto neste artigo e nos arts. 535 a 539 estende o projecto o designativo de inscripção á forma de publicidade adoptada para os actos de constituição e transmissão de propriedade sobre immoveis. Pelo disposto no art. 681 faz o mesmo quanto aos actos, pelos quaes se constituem e transmittem as servidões, a emphyteuse, o usufructo, o uso, a habitação, o penhor e a anticherese.

Esta alteração na linguagem juridica é indefensavel. Na legislação patria sempre se reservou o nome de inscripção ao registro das hypothecas. (L. n. 1.237, de 24 de set. de 1864, arts. 9º e 10. Reg. de 26 de abr. de 1865, arts. 199 a 248. Decr. n. 169 A, de 19 de Janeiro de 1890, art. 9º. Decr. n. 370, de 2 de maio de 1890, arts. 171 a 215.) No tocante á constituição e transmissão quer dos outros direitos reaes sobre immoveis, quer do senhorio delles, o nome consagrado sempre foi o de transcripção. (L. n. 1864, [o autor estará se referindo à Lei 1.237, de 1864, NE] art. 8º, dec. de 1865, arts. 256 a 281, decr. n. 169 A, de 1890, art. 8º, Decr. n. 370, de 1890, arts. 11 e segs. e 233 a 236.)

Está essa distincção tradicional nas principaes legislações estrangeiras. O cod. civ. fr. (arts. 2146 e segs.) estabelece a inscripção para as hypothecas. A transcripção instituida na lei de 1º de nov. de 1898 para as alienações de immoveis, recebeu, na lei de 23 de março de 1855 a devida ampliação a todos os direitos reaes, susceptíveis ou não, de hypotheca. A mesma discriminação está no cod. civ. ital. (Arts. 1932 a 1047 e 1981 a 2.006.) Seria facil mostral-a em quasi todos os outros, se valesse a pena.

Desse consenso afastou-se o cod. civ. allemão (arts. 313 e 1115), designando indifferentemente pelo nome de inscripção o registro quanto ás hypothecas e todos os outros direitos reaes. Para lhe seguirmos a innovação, porém, não descubro motivo algum, a não ser o de nos pormos ao tom do ultimo figurino. O systema de escripturação de registro, entre nós, está organizado em conformidade com a distincção firmada pelas nossas leis até hoje, ramificando-se em livros de inscripção, e livros de transcripção. Com a fusão desses dois ramos num só não se ha mister de esforço, para calcular os inconvenientes, que na pratica enxamearão a cada passo. E para que ? Cui Bono ? Com que beneficio ? Na realidade apenas o de termos eliminado uma palavra ao vocabulario do registro predial, a troco de inconvenientes consideráveis, na pratica de tal serviço”.

Por seu turno, Clóvis responderia com graça, ironia e acima de tudo acerto:

Não quer o Parecer da Commissão do Senado que se extenda “o designativo de inscripção á fórma de publicidade adoptada para os actos de constituição e transmissão da propriedade sobre immoveis”.

“Essa alteração na linguagem juridica é indefensavel”, sentenceia, sem cogitar da possibilidade de quaesquer embargos infringentes do julgado.

Duas são “as razões de tão peremptoria condemnação”: a) “a legislação patria sempre reservou o nome de inscripção ao registro das hypothecas”; b) “a distincção entre os dois vocabulos inscripção e transcripção é tradicional nas principaes legislações extrangeiras das quaes se afastou apenas o codigo civil allemão [art. 313 e 1.115]”.

Não parece irrefragavel a primeira razão. Tem, ao contrario, visos de fragilima. Si prevalecesse, nenhuma alteração se faria na linguagem do direito. E si o verbo do direito deve ter esse dom da inalterabilidade, privilegio identico ha de ser attribuido, e com melhores motivos, aos institutos que são a essencia de que a palavra é a fórma imperfeita. Em que grosseiro estadio da evolução chapinhariamos ainda? Nem um passo teriamos dado para aquem do tartamudear monosyllabico e da affirmação da vida pelo desenvolvimento rude da força physica.

Em apoio da segunda razão citam-se apenas a legislação civil franceza e a italiana, deixando-se em olvido injusto todas as outras, que emittiriam voto divergente si fossem invocadas.

Realmente em direito francez se faz a distincção alludida, mas na França, como na Italia, a palavra transcripção corresponde ao seu significado, é copia integral do titulo. Ahi a linguagem do direito está em harmonia com a realidade dos factos, ao contrario do que se observa entre nós onde o registro dos actos translativos da propriedade se faz normalmente por extracto. Entre nós, portanto, o que realmente existe é mostrando a incorrecção da nomenclatura do nosso direito hypothecario. E o Projecto, conservando o registro por extracto, nada mais fez do que lhe dar o nome adequado.

A inscripção é citada no cod. civ. port., arts. 953, 956, 950, 960 e outros; no cod. civ. espanhol, art. 605 e seguintes; no cod. civ. do Chile, art. 686; no do Mexico, art. 3.190 e seguintes; no do Cantão de Zurich, art. 118, letra d.

Não é, pois, “a unidade do codigo allemão que apoia a linguagem do Projecto, mas sim a pluralidade preponderante das legislações mais chegadas á nossa”.

Registro, transcrição, inscrição, averbações, assentos, anotações…

  • PDF logo -Projecto de CC brazileiro. BARBOSA. Ruy. projecto do Código Civil Brazileiro – Trabalhos da Commisão Especial do Senado. Parecer de Ruy Barbosa. Rio de Janeiro: Gráfica do Senado Federal, 1901. Parecer de Ruy Barbosa acerca da redação do art. 530 do projeto do Código Civil de 1916.
  • PDF logo – Ruy Barbosa e o CC (art. 530). Reprodução da resposta de Clóvis Bevilaqua às críticas de Ruy Barbosa a respeito da nomenclatura do registro (transcrição ou inscrição).

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